Lisa
Tinha
acordado com uma sensação diferente, mas tudo permanecia igual. Tudo estava
igual, aliás, e isso não soava muito bem. Após concluir a rotina matinal,
caminhando pelo campus e conversando com alunos, Lisa seguiu em direção à sala
dos professores. Estava estranhamente silenciosa, a não ser por um som baixo de
música. Ao se aproximar mais, deparou com Elijah dedilhando uma guitarra. Ela
encostou-se na parede, cruzando os braços, sorrindo e admirando a concentração
do professor.
Seu cabelo
era escuro e longo o suficiente para que cobrisse o rosto, enquanto tocava sentado
em um pequeno banco. A melodia era doce e os dedos dele passeavam pelas cordas
formando os acordes. Tinha um tom melancólico e esperançoso ao mesmo tempo,
parecia transbordar mais contradições do que o seu próprio compositor.
A um metro
de distância dele, Lisa sentiu e viu que uma lágrima caia, molhando o
instrumento. Logo após a primeira, caíram a segunda, a terceira e a décima. Em
passos silenciosos, ela chegou mais perto, abaixando-se e tocando seus cabelos,
afastando-os e olhando nos olhos dele que logo passou a mão no rosto
secando-se.
- Perdão,
precisa de mim? – Ele se endireitou pousando a guitarra ao lado.
- Sim, vou
sempre precisar. Precisar que me procure quando for necessário ao invés de se
isolar. – Ela toca o rosto dele, beijando sua testa maternalmente.
Ele sorri e
a olha novamente. – A Faith perguntou muito sobre você. Ela fica agitada
durante suas viagens.
- Por isso
mesmo que ir vê-la foi uma das primeiras coisas que eu fiz ontem quando
cheguei. – Lisa dá um tapinha na perna de Elijah e levanta-se, abrindo um
caderno deixado em cima da mesa.
- E a
viagem? Foi bem-sucedida? – Ele pergunta sentando-se à mesa.
- Na medida
do possível, sim. Sarah tem tudo sob controle e pelo visto a Amber não planeja
nenhuma loucura.
- Lisa, isso
é arriscado. A vadia loira é esperta, ela vai acabar percebendo.
- Vadia
loira! –Troy entra na sala deixando a bolsa de lado – Um dos meus assuntos
preferidos, só que ao contrário, como diz a Lizzie.
- Lizzie,
Lizzie – Elijah ri se recompondo – O dia mal começou e já está pensando nela...
- A menina
vive no meu pé, nada mais natural que eu acabe pegando vícios de linguagem
dela. – Troy dá de ombros.
- Só pega os
vícios de linguagem... Uhum... – diz Elijah.
Lisa ri e
senta-se na cadeira da ponta.
- Não
importa quantas décadas passem, vocês nunca vão mudar.
- A Lizzie é
minha aluna. Além disso, tenho idade para ser avô do bisavô dela. –Troy assopra
o café pegando livros na estante.
- Isso não
quer dizer nada. Em que mundo você vive, cara? – Elijah olha para Lisa – Não
estou certo?
- É. Eu
concordo... – diz Lisa depois de ponderar uma resposta – Acho que a menina
gosta mesmo de você, Troy. Seus olhos verdes fazem sucesso.
- Melhor a
gente voltar a falar sobre a vaca loira. – ele se senta na cadeira mais próxima
de Lisa, a cadeira de vice-diretor.
- Melhor não
é. Seu caso “quase-amoroso” com a minúscula é bem mais agradável. – Elijah diz.
– Porém, isso sim tira o meu sono.
- Os nossos.
– Troy pega mais café.
- Indo
direto ao assunto – Lisa diz – Eu confio na Sarah. E se ela diz que confia na
pessoa em que está nos passando as informações sobre a Amber, então eu me sinto
tranquila pelo menos quanto a isso.
- Notícias
sobre a Natasha? – Elijah pergunta.
- Nenhuma. –
Lisa movimenta a cabeça negativamente – O que pode não ser um bom sinal.
- E o que
fazemos agora? – Troy se encosta na cadeira deixando os livros de lado – As
pessoas estão seguras aqui, algumas eu poderia dizer que quase já se esqueceram
ou se conformaram com a realidade do que acontece lá fora. Isso não é bom.
Precisamos reagir de alguma forma.
- A verdade
é que eu não sei. – Lisa olha para ele – Eu não digo isso na frente dos outros
pra que não pensem que perdemos o controle, mas eu não sei o que fazer. Não
sinto que estamos preparados para começar tudo isso de novo. Seriam muito mais
perdas.
Elijah
assume uma postura séria olhando fixamente para a mesa, até romper o silêncio.
- Concordo
que não estamos realmente preparados, mas o Troy está certo, Lisa. A casa da
Florence pode nos dar apoio. Eu mesmo posso ficar responsável por uma das
equipes. Conheço outros que também viriam de bom grado para o nosso lado, eu só
preciso de sua permissão. – Elijah volta a olhar para Lisa – Sabe o quanto eu
perdi da última vez, mas há algo ainda maior do que tudo isso.
Lisa suspira
e permanece em silêncio.
- Podemos ir
ainda além. – Troy diz – É só eu ligar para o meu irmão. Aquele imbecil lidera
a F.O.O.W. há décadas.
-
Enlouqueceu? – Elijah arregala os olhos – Não temos nada a ver com a F.O.O.W.
Seria um absurdo colocar eles dentro disso.
- Eu sei que
não mantemos conexão alguma com eles e é por isso que não comento sobre meu
irmão aqui dentro. Mas não podemos ir à guerra contando apenas com crianças.
Por mais que os professores estejam fazendo um ótimo trabalho com eles, ainda
não têm a experiência necessária. Nos treinos eles erram e recomeçam. Lá eles
vão morrer e isso é tudo. A F.O.O.W. voltou a crescer, eles têm muito mais
membros agora. Isso pode ser decisivo.
- Eu entendo
a visão de vocês dois. – Lisa intervém – Não há como fugir disso, então nós
vamos precisar de apoio. Elijah, entre em contato com as pessoas que você
conhece, trague o maior número que puder. Troy, ligue para a Florence e peça
que ela venha aqui. Eu quero conversar pessoalmente com ela. Quanto a F.O.O.W.
eu preciso de um tempo para analisar a ideia. Os integrantes dessa...
organização não têm fama de gostar de seguir muitas regras, mas não vou
descartar a ideia de conversar com o seu irmão. Os alunos mais novos
continuarão estudando e treinando, os graduados serão convocados para uma
reunião amanhã de noite. Vocês já sabem o que isso significa. – Lisa respira
fundo - E que a deusa nos ajude.
- E que a
deusa nos proteja. –Troy e Elijah respondem juntos.
Alguém bate
na porta e depois de dada a permissão, Lizzie entra. Uma menina pequena e
magrinha, com olhos azuis claros e traços delicados. Cabelos negros e repicados
na altura do ombro tatuado com desenhos de guirlandas de flores vermelhas.
- Desculpe
incomodar, mas chegou um carinha querendo falar com a senhora. Ele diz que te
conhece. Acho que veio querendo ficar.
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