domingo, 25 de janeiro de 2015

Lisa



Lisa


Tinha acordado com uma sensação diferente, mas tudo permanecia igual. Tudo estava igual, aliás, e isso não soava muito bem. Após concluir a rotina matinal, caminhando pelo campus e conversando com alunos, Lisa seguiu em direção à sala dos professores. Estava estranhamente silenciosa, a não ser por um som baixo de música. Ao se aproximar mais, deparou com Elijah dedilhando uma guitarra. Ela encostou-se na parede, cruzando os braços, sorrindo e admirando a concentração do professor.
Seu cabelo era escuro e longo o suficiente para que cobrisse o rosto, enquanto tocava sentado em um pequeno banco. A melodia era doce e os dedos dele passeavam pelas cordas formando os acordes. Tinha um tom melancólico e esperançoso ao mesmo tempo, parecia transbordar mais contradições do que o seu próprio compositor.
A um metro de distância dele, Lisa sentiu e viu que uma lágrima caia, molhando o instrumento. Logo após a primeira, caíram a segunda, a terceira e a décima. Em passos silenciosos, ela chegou mais perto, abaixando-se e tocando seus cabelos, afastando-os e olhando nos olhos dele que logo passou a mão no rosto secando-se.
- Perdão, precisa de mim? – Ele se endireitou pousando a guitarra ao lado.
- Sim, vou sempre precisar. Precisar que me procure quando for necessário ao invés de se isolar. – Ela toca o rosto dele, beijando sua testa maternalmente.
Ele sorri e a olha novamente. – A Faith perguntou muito sobre você. Ela fica agitada durante suas viagens.
- Por isso mesmo que ir vê-la foi uma das primeiras coisas que eu fiz ontem quando cheguei. – Lisa dá um tapinha na perna de Elijah e levanta-se, abrindo um caderno deixado em cima da mesa.
- E a viagem? Foi bem-sucedida? – Ele pergunta sentando-se à mesa.
- Na medida do possível, sim. Sarah tem tudo sob controle e pelo visto a Amber não planeja nenhuma loucura.
- Lisa, isso é arriscado. A vadia loira é esperta, ela vai acabar percebendo.
- Vadia loira! –Troy entra na sala deixando a bolsa de lado – Um dos meus assuntos preferidos, só que ao contrário, como diz a Lizzie.
- Lizzie, Lizzie – Elijah ri se recompondo – O dia mal começou e já está pensando nela...
- A menina vive no meu pé, nada mais natural que eu acabe pegando vícios de linguagem dela. – Troy dá de ombros.
- Só pega os vícios de linguagem... Uhum... – diz Elijah.
Lisa ri e senta-se na cadeira da ponta.
- Não importa quantas décadas passem, vocês nunca vão mudar.
- A Lizzie é minha aluna. Além disso, tenho idade para ser avô do bisavô dela. –Troy assopra o café pegando livros na estante.
- Isso não quer dizer nada. Em que mundo você vive, cara? – Elijah olha para Lisa – Não estou certo?
- É. Eu concordo... – diz Lisa depois de ponderar uma resposta – Acho que a menina gosta mesmo de você, Troy. Seus olhos verdes fazem sucesso.
- Melhor a gente voltar a falar sobre a vaca loira. – ele se senta na cadeira mais próxima de Lisa, a cadeira de vice-diretor.
- Melhor não é. Seu caso “quase-amoroso” com a minúscula é bem mais agradável. – Elijah diz. – Porém, isso sim tira o meu sono.
- Os nossos. – Troy pega mais café.
- Indo direto ao assunto – Lisa diz – Eu confio na Sarah. E se ela diz que confia na pessoa em que está nos passando as informações sobre a Amber, então eu me sinto tranquila pelo menos quanto a isso.
- Notícias sobre a Natasha? – Elijah pergunta.
- Nenhuma. – Lisa movimenta a cabeça negativamente – O que pode não ser um bom sinal.
- E o que fazemos agora? – Troy se encosta na cadeira deixando os livros de lado – As pessoas estão seguras aqui, algumas eu poderia dizer que quase já se esqueceram ou se conformaram com a realidade do que acontece lá fora. Isso não é bom. Precisamos reagir de alguma forma.
- A verdade é que eu não sei. – Lisa olha para ele – Eu não digo isso na frente dos outros pra que não pensem que perdemos o controle, mas eu não sei o que fazer. Não sinto que estamos preparados para começar tudo isso de novo. Seriam muito mais perdas.
Elijah assume uma postura séria olhando fixamente para a mesa, até romper o silêncio.
- Concordo que não estamos realmente preparados, mas o Troy está certo, Lisa. A casa da Florence pode nos dar apoio. Eu mesmo posso ficar responsável por uma das equipes. Conheço outros que também viriam de bom grado para o nosso lado, eu só preciso de sua permissão. – Elijah volta a olhar para Lisa – Sabe o quanto eu perdi da última vez, mas há algo ainda maior do que tudo isso.
Lisa suspira e permanece em silêncio.
- Podemos ir ainda além. – Troy diz – É só eu ligar para o meu irmão. Aquele imbecil lidera a F.O.O.W. há décadas.
- Enlouqueceu? – Elijah arregala os olhos – Não temos nada a ver com a F.O.O.W. Seria um absurdo colocar eles dentro disso.
- Eu sei que não mantemos conexão alguma com eles e é por isso que não comento sobre meu irmão aqui dentro. Mas não podemos ir à guerra contando apenas com crianças. Por mais que os professores estejam fazendo um ótimo trabalho com eles, ainda não têm a experiência necessária. Nos treinos eles erram e recomeçam. Lá eles vão morrer e isso é tudo. A F.O.O.W. voltou a crescer, eles têm muito mais membros agora. Isso pode ser decisivo.
- Eu entendo a visão de vocês dois. – Lisa intervém – Não há como fugir disso, então nós vamos precisar de apoio. Elijah, entre em contato com as pessoas que você conhece, trague o maior número que puder. Troy, ligue para a Florence e peça que ela venha aqui. Eu quero conversar pessoalmente com ela. Quanto a F.O.O.W. eu preciso de um tempo para analisar a ideia. Os integrantes dessa... organização não têm fama de gostar de seguir muitas regras, mas não vou descartar a ideia de conversar com o seu irmão. Os alunos mais novos continuarão estudando e treinando, os graduados serão convocados para uma reunião amanhã de noite. Vocês já sabem o que isso significa. – Lisa respira fundo - E que a deusa nos ajude.
- E que a deusa nos proteja. –Troy e Elijah respondem juntos.
Alguém bate na porta e depois de dada a permissão, Lizzie entra. Uma menina pequena e magrinha, com olhos azuis claros e traços delicados. Cabelos negros e repicados na altura do ombro tatuado com desenhos de guirlandas de flores vermelhas.
- Desculpe incomodar, mas chegou um carinha querendo falar com a senhora. Ele diz que te conhece. Acho que veio querendo ficar.

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